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A revolução do home care e sua presença estratégica para a saúde no Brasil

Publicado em · 3 min de leitura

A revolução do home care e sua presença estratégica para a saúde no Brasil

Artigo de Kelvin Kaiser, CEO do Grupo Cene.

O termo home care (cuidado em casa) vem ganhando cada vez mais espaço quando o assunto é saúde. Trata-se de uma modalidade de atendimento que leva assistência médica, enfermagem e terapias para o domicílio do paciente, substituindo ou complementando internações hospitalares. Com monitoramento profissional, maior conforto e menor exposição a infecções, o modelo deixou de ser alternativa pontual para assumir papel estratégico na engrenagem da saúde brasileira.

A consolidação do atendimento domiciliar é resultado de uma transformação construída ao longo das últimas décadas. Originalmente concebido como alternativa humanizada ao ambiente hospitalar, o home care encontrou terreno fértil diante do envelhecimento da população, da necessidade de reduzir custos hospitalares e dos avanços tecnológicos que revolucionaram a assistência em saúde.

Nos anos 2000, o foco principal estava no acolhimento e na melhora da qualidade de vida do paciente. A recuperação em casa passou a ser associada à redução do risco de infecções hospitalares e ao impacto positivo da convivência familiar. Com o passar do tempo, contudo, o atendimento domiciliar também passou a ocupar papel econômico relevante. Operadoras de saúde passaram a enxergar no modelo uma forma de racionalizar custos assistenciais, já que manter pacientes em casa tende a ser menos oneroso do que prolongar internações hospitalares.

Entre 2010 e 2019, o setor viveu um forte ciclo de expansão. Empresas ampliaram operações pelo país, impulsionadas pelo envelhecimento populacional, pelo aumento das doenças crônicas e pela necessidade crescente de ampliação do cuidado. O home care deixou de ser visto apenas como extensão hospitalar e passou a integrar linhas de atenção à saúde de muitos planos.

Paralelamente, estudos clínicos reforçaram os benefícios do modelo. Pacientes atendidos em casa demonstravam menor exposição a infecções e, em diversos casos, recuperação mais rápida. O que antes era uma alternativa de suporte passou a ser compreendido como solução assistencial efetiva.

Nos últimos anos, porém, um novo motor acelerou ainda mais esse processo: a tecnologia. O avanço começou com equipamentos mais modernos para uso domiciliar e evoluiu para sistemas digitais de gestão clínica. Hoje, sensores, monitoramento remoto e inteligência artificial já fazem parte da rotina de muitas operações. Dispositivos conectados permitem acompanhar sinais vitais em tempo real e emitir alertas automáticos às equipes médicas diante de qualquer alteração, enquanto prontuários digitais e sistemas integrados ampliaram a capacidade de acompanhamento clínico à distância.

Apesar da evolução, o setor ainda enfrenta obstáculos relevantes. A expansão acelerada esbarra em gargalos estruturais, escassez de profissionais qualificados e ausência de regulamentação compatível com a dimensão que o home care alcançou no país. A carência de profissionais em áreas como enfermagem, fisioterapia e fonoaudiologia impacta diretamente a capacidade de expansão do atendimento, sobretudo em cidades menores e regiões mais afastadas.

Outro entrave está no ambiente regulatório. O Brasil ainda carece de normas mais específicas para o atendimento domiciliar. Atualmente, o home care não integra oficialmente o rol obrigatório de cobertura da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o que faz com que a autorização dependa, em grande parte, da decisão das operadoras de saúde. Na prática, essa ausência de critérios claros gera conflitos frequentes entre famílias, operadoras e empresas prestadoras de serviço.

A pandemia de Covid-19 evidenciou ainda mais o caráter estratégico do atendimento domiciliar. Com hospitais sobrecarregados, muitos pacientes receberam alta precoce e seguiram tratamento em casa, reforçando a importância do modelo na desospitalização e na liberação de leitos. No período pós-pandemia, operadoras passaram a incorporar o home care de forma mais estruturada.

Diante do envelhecimento populacional e das limitações estruturais da rede hospitalar brasileira, o home care tende a ocupar posição cada vez mais central no sistema de saúde. A tecnologia seguirá impulsionando essa transformação, mas a regulamentação e a qualificação profissional precisam acompanhar o mesmo ritmo. O futuro da saúde brasileira passa, inevitavelmente, pela capacidade de cuidar melhor dentro da casa do paciente.

*Kelvin Kaiser é CEO do Grupo Cene.

Publicado originalmente na Empreenda Revista, com repercussão em Repórter Diário, SEGS, O Bom da Notícia, Voz do Bairro, Bebedouro News, Revista Kdea 360, Jornal do Bras, Gazeta da Semana e A Redação.